Como seria o amor antes do incidente da Torre de Babel? Como seria dizer que te amo no paleolítico, antes de conseguir mexer a língua de forma coordenada e precisa, provocando sons de vogais e consoantes, entoações, sotaques, ironias, interrogações e exclamações? Como seria fazer-te sentir o que sinto sem usar este ruído que tanto teimo em trocar contigo, de boca para boca? Como seria…? Amar sem falar.
Não é o amor universal? Porque usamos da palavra então? Da língua, do idioma, do dialecto… Porque vocalizamos se as nossas bocas querem silêncio e entrega? Porque nos movemos de formas tão estranhas se todos sabemos dançar o amor?
Ah, mas com tão vasto vocabulário, com tanta palavra no dicionário, com milhões de combinações possíveis, haverá umas poucas que com certeza falarão ao coração, ao sentimento!!! Não?…
Porque é então que acaba o amor na palavra, no grito, na acusação? Porque nos guerreamos neste jogo de quem mais ofende? Porque cansamos a voz, de roupa no corpo, tentando fazer sentido com frases e retóricas. Porque não cansamos antes a voz com gemidos, sem roupa, e sem qualquer preocupação em fazermos sentido? Porque não falamos de facto o amor? Boca com boca, seio com seio, coxa com coxa, corpo em corpo…?
Porque não te amo eu sempre em silêncio, como quando te observo a dormir? (Porque não adormeço eu nunca sem te amar…?)
Porquê?
O amor tem lá porquê… o amor tem só tempo. E não há tempo a perder. Calem-se os apaixonados, seus corpos que se entendam.
O amor é surdo mudo. Falemos com as mãos…

