No seu passeio pelo bosque evitava sempre pisar o riacho. Às vezes fazia-se gigante, atravessando um oceano inteiro de uma só passada. “O movimento leve é essencialmente majestoso”, dizia. E voltava a passar o riacho. Já nem olhava para o bosque, não se deliciava mais com o som crepitante das folhas secas de outono debaixo dos seus pés, não voltara a admirar a luz do sol por entre as altas árvores. Não era o bosque que o fascinava mais. Era o riacho. Ficava sobre ele, com uma perna em cada margem, observando o fluxo constante do tempo. O seu som destacava-se do da floresta, sobrepunha-se aos vagos cantares das aves, à música ambiente do vento a que dançam as folhagens. A água era constante. Fixado nessa correria notou tarde que o riacho alargava. Estava quase com os pés molhados, tinha que aumentar a distância entre eles. O equilíbrio era agora mais difícil. Em breve teria que escolher uma margem e transportar todo o peso do seu corpo para apenas um dos lados. Mas não queria, assim não podia observar o riacho como gostava. A água dava-lhe já pelos pés e não tinha ainda tomado uma decisão. Queria ver o riacho bem de cima e não ficar molhado. Começava a cair para trás, para a frente, quanto mais afastava as pernas mais se desequilibrava.
Desistiu. Escolheu o lado de onde veio e nunca mais voltou.
