Sábado. Aproximava-se o fim da primeira semana de rodagens, com direito a festa no domingo. Não quisemos esperar, fomos todos para a piscina do hotel, beber e relaxar. Eis que chega Frank Aguiar, com garrafas de Mangueira, a cachaça local que patrocina o filme. VIvas e iupis de toda a gente. A cachaça é servida em copinhos pequenos de shot. Faço jus ao recipiente e entorno-o de uma vez na goela. “Mais, porra.” Num espaço de meia hora bebo uns 6 a 8 shots de cachaça Mangueira com 39% de teor alcoólico, sem nada no estômago. Se fosse de 40% não teria abusado tanto. De qualquer maneira não sentia o efeito do álcool, por isso fui bebendo, enchendo o copo e soltando entre dentes que “isto hoje não está a bater…”
Meus caros, se já apanharam uma borracheira de cachaça (eu já, por isso deveria saber…) isto é ponto assente. A maldita só faz efeito quando quer, e a partir desse momento tudo é turvo, incerto e… adiante.
Domingo de manhã. Acordo horas depois da chamada para as rodagens, o telefone toca, querem saber se estou bem, porque não apareci no set, se vou lá ter depois. Sou político nas respostas, quero é desligar e dormir mais. Fim da chamada, pouso o telefone e suspiro… ou melhor, inspiro só, pois mal o faço perco o sono. Um intenso cheiro a vomitado enche-me as narinas. Levanto-me. O meu quarto é uma pintura de Jackson Pollock, mas com mais cor. Imediatamente atribuo o surto artístico à Mangueira da noite anterior. O meu problema não é esse… “como raios é que eu cheguei ao quarto?”. Só me lembro de estar a encher o copo e a dizer “isto hoje não está a bater”. Maldita cachaça. Investigo o meu quarto à procura de pistas, falta um grande pedaço de memória na minha cachola. Daí penso no pior, devo ter feito uma figura bem triste, alguém deve-me ter trazido a braços para o quarto, talvez tenha até soltado a veia artística de Pollock na piscina, nos corredores ou no elevador. Fico com medo de sair do quarto, de ser reconhecido por alguém do hotel como o bêbedo de ontem que só fez merda. Ou mesmo de ir ter ao set e ser motivo de chacota, o portuga que não aguenta a bebida. De qualquer maneira a fome já aperta, e já não suporto o cheiro do quarto. Tomo banho, visto-me e desço para almoçar, sempre de cabeça baixa e cabelo para a frente. Evito cruzar-me com funcionários do hotel, arrepiando caminho sempre que avisto alguém na minha direcção. Furtivo como ninguém, levo meia hora para chegar do 3º andar ao lobby para almoçar (sim, fui pelo elevador). Sinto-me no Metal Gear Solid, sem balas, chaff granades ou dardos tranquilizantes, old school style, gotta go around…
Chego ao restaurante e, como no CSI ou noutra série careta, sou atingido por um daqueles flashbacks em que é tudo muito branco e com frames a menos. “Eu estive aqui ontem”. Diário de bordo 304857 do comando estelar, há uma actualização de memória disponível. Agora a minha última recordação é a de ter estado com o pessoal prestes a jantar, neste restaurante. Nem lhe chamaria uma memória, é um farrapo, um lance de semi-lucidez na embriaguez em que me encontrava mergulhado. Imediatamente me torno furtivo de novo, perante os funcionários do restaurante, continuo sem saber se causei distúrbios antes de chegar ao quarto e de como lá cheguei. Almoço numa mesa a um canto, calado, sem dar muito nas vistas. Sinto os olhares dos funcionários virados para mim, comentários em sussuro, risadinhas disfarçadas… Tudo imaginação minha. Levanto-me e dirijo-me à saída. “Senhor, por favor”, chama-me de volta o chefe de serviço. Congelo por meio segundo, viro-me para trás, sorrio, “pois não?” Diz-me que falta assinar a despesa, para a facturação do hotel. Assino, bazo para o quarto, telefono para a recepção a pedir que me venham limpar o quarto. 15 minutos depois chega a moça da limpeza e mudança, abro-lhe a porta, ela entra e sai de novo. Não tive coragem de lhe explicar o sucedido (não me lembro). Ela volta meio minuto depois com uma máscara de respiração na face e produtos de limpeza com símbolos de radioactividade na embalagem. “É melhor sair um pouquinho senhor”, diz-me o Darth Vader de rabinho jeitoso. Espero à porta. Em cinco minutos a moça trocou toda a roupa das camas, as toalhas, limpou o chão, apagou sem misericórdia a minha arte abstracta do (col)chão.
Falta ainda desvendar o fim da minha noite. Telefono para a minha colega de trabalho, que me ligou antes para o quarto a perguntar por mim. pergunto-lhe o que se passou na noite anterior, se fiz alguma asneira, digo-lhe que não me recordo de como cheguei ao quarto. Ela explica-me tudo, tranquiliza-me, “não se passou nada demais”. Fui jantar com eles, comi, e de repente levantei-me e disse “vou dormir”. disse-me que ninguém percebeu a minha saída repentina, sem demais explicações. Aliviado, decido ir adiantando trabalho no computador. É só na festa de logo à noite que descubro outros pormenores: que o actor principal do filme me imitou ao pequeno almoço, no fim de comer levantou-se e disse “vou dormir”; que ainda na piscina dei uma aula de história de meia hora sobre a Europa e Portugal, ao fotógrafo de cena brasileiro e ao director de fotografia alemão. Abençoados os dois pela paciência. Abençados também vocês se chegaram a esta frase. Muita gente bebeu demais nessa noite. Eu fui dos poucos a ir sozinho e pelo meu pé para o quarto.
Vomitar é um momento muito introspectivo para mim…